5 – Oficina virtual do GEAC 2017 – Marxismos com antropologias

Proposta da oficina

Para nós o comunismo não é um estado que deve ser implantado, um ideal ao qual devamos ajustar a realidade. Nós chamamos de comunismo o movimento real que anula e supera o estado de coisas atual.

Karl Marx e Friedrich Engels. A Ideologia Alemã.

Com o intuito de dar continuidade aos espaços de autoformação promovidos pelo Grupo de Estudos em Antropologia Crítica-GEAC, convidamos todxs os interessadxs para participar de nossa segunda oficina virtual, intitulada “Marxismos com antropologias”. A oficina ocorrerá entre os dias 1° de março e 1° de maio de 2017 através da plataforma We.riseup. Neste espaço de autoformação abordaremos discussões que, no âmbito da antropologia mainstream, têm sido obliteradas sistematicamente, não obstante sua relevância para o campo do político e para as lutas sociais do presente. Trata-se de debates imprescindíveis para a atuação reflexiva nas conjunturas atuais e para a construção de devires comunistas na ação e no pensamento.

Na presente oficina nossa intenção é acessar leituras da obra marxiana e do marxismo clássico que nos permitam avaliá-los enquanto expressão teórico-política da intenção comunista. Prestar atenção às políticas da teoria que constituem e informam a máquina conceitual marxista significa, portanto, retornar àquela palavra corrompida, incômoda e impertinente: comunismo.

Depois da queda do muro de Berlim, como sintoma de um mundo direitizado e desiludido, marxismo e comunismo atravessaram épocas de desprestígio. Todas as radicalidades que questionaram o ordenamento social baseado na propriedade privada e não aderiram ao aparelho estatal e ao sistema de partidos que o integra foram expostas à cínica chantagem do Gulag e convidadas a aderir às “evidências” do novo período histórico. Neste contexto, os que ainda ousavam se dizer marxistas descartaram a ideia de comunismo classificando-o como excesso rebelde e irracional que assombrava o marxismo e a obra dos seus precursores. Salvar este excesso do monte de entulhos produzido pela teleologia liberal implica dar um novo começo à ele; implica um esforço por viabilizar a ideia de que é necessário superar a produção social organizada pela lógica do capital e suas formas de desigualdade e horror. Só poderemos superar o marxismo como filosofia quando esta tarefa tenha sido cumprida. Enquanto isso, é necessário retomá-lo, ou melhor, retomar sua vocação básica que, a propósito, nunca foi a de ser um mero programa científico, mas sim, como argumentou Sylvain Lazarus, ser a política do comunismo. Uma política da teoria que consiste em evidenciar e enunciar as condições concretas de impossibilidade da ordem atual para fortalecer, ética e estrategicamente, a criação de novos possíveis.

Atuar o marxismo enquanto política do comunismo implica desenvolver meios para refletir de maneira situada sobre os devires radicais da conflitividade social contemporânea; devires que colocam em questão os a priori da ordem existente e engendram uma razão própria que, no entanto, precisa ser especificada no tocante ao seu conteúdo e ao seu objeto. Neste ponto, começa a fazer sentido falar de “antropologias com marxismos”. A antropologia é pensada, aqui, da mesma forma que o marxismo, a partir de sua vocação mais básica. Uma vocação que consiste em produzir perguntas, respostas e sentidos em meio ao encontro com os demais. Articulada com o marxismo, a vocação antropológica se converte em prática de análise e acompanhamento político sistemático das alteridades rebeldes — das invariantes comunistas? — que transbordam e transgridem a pretensão totalitária da produção capitalista e da sua parafernália político-institucional. Falar de marxismos com antropologias é, portanto, re-inscrever a análise crítica e situada da vida coletiva no horizonte da política radical e transformadora.

Convidamos todxs vocês a confluírem num espaço comum de pensamento e composição política para ponderar juntxs sobre a necessidade e as consequências de praticar marxismos com antropologias. Sabemos que nos espaços acadêmicos onde habitam as antropologias institucionais disciplinares ainda existem muitos espantalhos que as vozes autorizadas insistem em denominar marxismo e comunismo. A bibliografia proposta para esta oficina virtual confronta esses espantalhos com a vivacidade de um pensamento ativo e em luta.

 

Bibliografia:

Sessão 1: Posicionar-se diante da política marxista e da hipótese comunista. 

– La ontología marxista de 1844 y la cuestión del “corte”. Gerard Granel.

La Comuna, el Estado, la Revolución. Daniel Bensaïd

– El comunismo invariante o la acumulación de la crítica.  Bruno Bosteels.

– La idea de Comunismo (artigo). Alain Badiou.

– El comunismo es la crítica radical de todo lo que existe. Entrevista com Michael Hardt

Sessão 2: Outros clássicos 

O capitalismo como Religião. Walter Benjamin

– Sobre a ideia de emergência em Lukács e Bhaskar: para uma defesa da historicidade das estruturas sociais. Rodrigo Monfardini

–  El principio esperanza. Prólogo. Ernst Bloch.

– Lucien Goldmann ou a aposta comunitária. Michel Löwy.

Sessão 3: Marxismo como herança e promessa em diversas frentes de ação e pensamento 

 “Conjurar — o marxismo”, capítulo 2 de Espectros de Marx. Jacques Derrida.

– “Marx, Guattari e Deleuze”, entrevista com Isabelle Garo e Anne Sauvagnargues .

– Una unión queer entre marxismo y feminismo?, capítulo IV do livro Las Sin Parte, matrimonios y divorcios entre marxismo y feminismo

– Repensando a Marx en un mundo post marxista. Moishe Postone

– El programa científico de investigación de Carlos Marx (Ciencia social funcional y crítica). Enrique Dussel

Sessão 4: Marxismos com antropologias e ciências sociais 

– Capítulo I (Ideologia) e IV (Marxismo) do livro Ideologias e Ciência Social. Michel Löwy.

– Teoria social crítica e tendências de desenvolvimento, emancipação e comunismo tardio.  José Maurício Domingues

– Argumento e Capítulo I de Antropología del Nombre. Sylvain Lazarus

– Rumo a uma antropologia marxiana? (a versão original em inglês pode ser baixada através deste link). Nicholas De Genova.

– Posfácio à edição estadunidense de “A origem da família, do Estado e da propriedade privada”. Eleanor Burke Leacock.

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